Segurança em SP: Números Ocultam Desigualdade e Letalidade Policial
Análise crítica da segurança pública em SP revela que o foco em números de produtividade oculta a alta letalidade policial e o perfil das vítimas, majoritariamente jovens negros de periferia.

A forma como a segurança pública é apresentada em São Paulo tem sido alvo de questionamentos. Em vez de focar apenas em dados de produtividade, como prisões e capturas exibidas em painéis digitais como o Prisômetro do programa Smart Sampa, é crucial analisar quem está sendo afetado por essa política e que tipo de segurança está sendo, de fato, produzida. A pesquisadora Francine Ribeiro destaca que a narrativa oficial, centrada em números e vigilância, pode mascarar realidades importantes.
O programa Smart Sampa, que utiliza milhares de câmeras pela cidade, e o Programa Olho Vivo, com câmeras corporais em policiais, deveriam garantir transparência e controle da atividade policial. No entanto, a forma como essas ferramentas são usadas é determinante. Enquanto algumas câmeras reforçam a ideia de eficiência, outras, quando manipuladas ou com gravações interrompidas — mesmo diante de determinações do STF para gravação contínua —, podem ocultar abusos e falhas no sistema.
## A Escolha pela Repressão
O discurso do governo estadual paulista tem priorizado a repressão, o que constrói um senso específico de segurança. Essa abordagem, segundo a análise, vem acompanhada de um desinvestimento em políticas de prevenção. O enfraquecimento dos mecanismos de controle da atuação policial e a instabilidade nos protocolos de uso das câmeras corporais agravam o cenário.
Um dos pontos mais críticos é o elevado índice de letalidade policial no estado, que apresentou quedas temporárias com a implementação inicial das câmeras corporais. Relatórios indicam que, após um pico em 2020, houve uma redução significativa até 2022. Contudo, a partir de 2023, com a mudança de governo, os números de mortes em intervenções policiais voltaram a subir drasticamente, superando os índices anteriores em 2024 e 2025. Essa reversão sugere que a redução alcançada não foi um acaso, mas sim um resultado que foi deliberadamente abandonado.
## O Perfil das Vítimas e o Descompasso na Segurança
A análise da pesquisadora vai além dos números absolutos e aponta que o perfil das vítimas da letalidade policial não é aleatório. Predominantemente, são homens negros, jovens e oriundos de periferias. Essa constatação revela desigualdades persistentes que a política de segurança atual parece ignorar ou perpetuar.
Existe um claro descompasso entre os indicadores de crimes relevantes, que apontam para quedas segundo dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), e a consolidação de uma política que se baseia na violência letal. A percepção pública, moldada pelo que é explicitamente mostrado — os números de produtividade — e o que é silenciado — o perfil das vítimas e a violência policial — , cria uma realidade parcial sobre a segurança no estado.