Mortes em Ações Policiais no RJ Superam 8 Mil; Jovens Negros são Alvo
Mais de 8 mil mortes em ações policiais no RJ desde 2019. Jovens negros são as principais vítimas, com um aumento de 13,8% em 2025.

Desde 2019, mais de 8 mil pessoas perderam a vida em decorrência de ações policiais no estado do Rio de Janeiro. Os dados alarmantes foram divulgados pela Rede de Observatórios em seu boletim "Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã", que foca no impacto da violência contra a população negra em nove estados brasileiros.
O estudo revela uma triste realidade: pessoas negras têm seis vezes mais chances de morrer em operações policiais no Rio de Janeiro do que pessoas brancas. A maioria das vítimas identificadas pelos pesquisadores são homens negros e jovens. Em 2025, o estado registrou 800 mortes por intervenção policial, representando um aumento de 13,8% em relação a 2024.
## Descontrole e Falta de Política Efetiva
Para o coronel José Vicente Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, as estatísticas indicam um "descontrole" das forças policiais. Ele questiona a eficácia das políticas de segurança adotadas, ressaltando que a falta de controle político e, em alguns casos, o estímulo à violência, contribuem para a perpetuação do problema no estado.
A pesquisadora Manuela Peclat, representante da Rede de Observatórios no Rio de Janeiro, corrobora essa visão, apontando a ausência de uma política de segurança pública verdadeiramente efetiva. Segundo ela, a "guerra às drogas" e as motivações políticas por trás das ações policiais demonstram uma dificuldade em combater o crime organizado de forma eficaz.
## Jovens e Crianças Vítimas
O perfil das vítimas também é preocupante. O estudo aponta que 409 mortos por intervenção policial tinham entre 18 e 29 anos. Mais chocante ainda é o fato de o Rio de Janeiro ter sido o único estado entre os nove analisados a registrar mortes de crianças de até 11 anos, com dois casos documentados. Peclat classifica essa situação como um indicativo de uma política "completamente fracassada" e orientada para a morte, questionando como uma criança poderia representar uma ameaça a policiais.
## Componente Racial e Disparidade
O levantamento detalha a disparidade racial nas mortes em ações policiais. Enquanto a população negra e parda representa 57,8% da população fluminense, segundo dados de 2021, ela compõe impressionantes 89,5% das vítimas de letalidade policial em 2026. A pesquisadora explica que essa taxa é calculada a partir da proporção de negros e brancos em relação à população total do estado, utilizando dados fornecidos pelas próprias secretarias de Segurança Pública.
## Taxa de Letalidade e Impunidade
O Rio de Janeiro figura com a terceira maior taxa de mortes em ações policiais entre os nove estados incluídos no estudo. Vicente Filho alerta para a necessidade de evitar a impunidade, argumentando que policiais com múltiplos casos de mortes em operações podem se sentir estimulados ao uso excessivo da força, mesmo sem provas de crime. Ele defende que não se pode "estimular condições para que policiais se tornem matadores".
## Implicações e Futuro
Os dados apresentados pela Rede de Observatórios levantam sérias questões sobre a condução das políticas de segurança pública no Rio de Janeiro, a persistência do racismo estrutural e a necessidade urgente de abordagens mais eficazes e humanas para o combate à violência e ao crime organizado.