Parasita global: Toxoplasmose afeta 1 em 3 pessoas e pede atenção
Parasita Toxoplasma gondii infecta 1 em 3 pessoas globalmente. Pesquisadores pedem à OMS que classifique a toxoplasmose como doença negligenciada para aumentar financiamento e prevenção.

Um agente infeccioso silencioso, o Toxoplasma gondii, está presente em cerca de um terço da população mundial, impactando aproximadamente 2,5 bilhões de pessoas. Apesar de sua vasta disseminação global, a toxoplasmose, doença causada por este parasita, ainda figura como uma enfermidade negligenciada nas prioridades de saúde pública internacionais. Um movimento liderado por pesquisadores brasileiros e australianos visa mudar esse cenário, buscando o reconhecimento oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A equipe internacional, encabeçada pelos oftalmologistas Justine Smith, da Universidade de Flinders (Austrália), e João Furtado, da Universidade de São Paulo (USP), argumenta em um artigo recente na revista PLOS Neglected Tropical Diseases que a toxoplasmose merece o status de Doença Tropical Negligenciada (DTN). Essa classificação, segundo os cientistas, poderia destravar fundos essenciais para pesquisas aprofundadas, campanhas de conscientização e desenvolvimento de programas de saúde mais eficazes.
## Transmissão e Riscos
O parasita Toxoplasma gondii é comumente associado aos gatos, seus hospedeiros definitivos, mas sua transmissão para humanos ocorre de diversas formas. A ingestão de fezes contaminadas, o consumo de carne crua ou malcozida contendo cistos do parasita, e a ingestão de água contaminada são as vias mais comuns. Uma vez no organismo, o Toxoplasma gondii geralmente se instala de forma latente, sem manifestar sintomas na maioria dos indivíduos.
No entanto, a infecção pode ter consequências graves, especialmente quando adquirida durante a gravidez. Nesses casos, o parasita pode atravessar a placenta, levando a abortos espontâneos ou causando danos neurológicos e oculares irreversíveis no feto. Estima-se que cerca de 190 mil bebês nasçam anualmente com toxoplasmose congênita, segundo estudos de 2013.
Além do risco congênito, a toxoplasmose ocular é uma das principais causas de perda de visão no mundo. O parasita pode inflamar a retina, resultando em sequelas permanentes mesmo após o tratamento. Há também evidências, embora ainda em debate, que sugerem uma possível ligação entre a infecção latente e alterações sutis no comportamento e na personalidade, podendo estar associada a um risco aumentado de transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia.
## Carga Desigual e Apelo por Reconhecimento
O impacto da toxoplasmose não é uniforme globalmente. Enquanto nos Estados Unidos a prevalência é estimada em cerca de 10%, em algumas regiões do Brasil, especialmente em comunidades mais pobres, a taxa pode ascender a 80%. Essa disparidade é um dos pilares do argumento para sua classificação como DTN, pois essas doenças afetam desproporcionalmente as populações mais vulneráveis.
"A toxoplasmose é uma das principais infecções oculares e uma importante causa de perda de visão em todo o mundo, mas recebe atenção limitada nas agendas globais de saúde", destacou Justine Smith. João Furtado complementou: "Muitas vezes, a toxoplasmose é considerada inevitável, mas suas formas de transmissão são bem conhecidas e ela pode ser prevenida". O apelo conjunto é para que a OMS reconheça a urgência em tratar a toxoplasmose como uma prioridade de saúde pública global.