Emoção de Jogos Decisivos Dispara Risco Cardíaco em Vulneráveis
Estudos indicam que jogos de futebol decisivos podem triplicar o risco de eventos cardiovasculares em pessoas com doenças cardíacas preexistentes. Emoção, estresse e fatores como álcool e má alimentação potencializam o perigo.

A paixão pelo futebol, especialmente em momentos decisivos, pode representar um risco real para a saúde cardiovascular de indivíduos predispostos. Um estudo que monitorou mais de 4 mil emergências médicas durante a Copa do Mundo de 2006 revelou um aumento significativo, de até três vezes, na incidência de eventos cardiovasculares em dias de jogos da seleção. A intensidade emocional das partidas funciona como um gatilho, exacerbando condições preexistentes.
Um torcedor de 60 anos, em Goiás, faleceu recentemente após passar mal enquanto assistia a um jogo entre Brasil e Japão. Embora a causa exata da parada cardiorrespiratória ainda não tenha sido oficialmente determinada, o caso se alinha com fenômenos já documentados pela medicina. Partidas de futebol com alta carga emocional podem desencadear infartos, arritmias e outras emergências cardiovasculares em pessoas que já possuem alguma vulnerabilidade cardíaca.
## Emoção como Gatilho de Risco
A relação entre o futebol e emergências cardíacas não é novidade na comunidade médica. Uma pesquisa seminal publicada no New England Journal of Medicine acompanhou 4.279 atendimentos de emergência durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha. Os resultados indicaram que, nos dias em que a seleção alemã jogava, a ocorrência de eventos cardiovasculares era 2,66 vezes maior em comparação com outros períodos. Para os homens, esse aumento chegou a 3,26 vezes. A intensidade da partida, mais do que a vitória ou a derrota, parece ser o fator preponderante.
O ato de assistir a um jogo decisivo provoca uma resposta fisiológica similar a outras situações de alto estresse. O corpo libera hormônios como a adrenalina, que aceleram os batimentos cardíacos, elevam a pressão arterial e aumentam a força de contração do coração. Em indivíduos saudáveis, essa reação é transitória. Contudo, para aqueles com placas de gordura nas artérias, hipertensão, doença coronariana ou predisposição a arritmias, essa sobrecarga pode precipitar um evento cardiovascular. O estudo alemão confirmou essa hipótese: entre pacientes com doença coronariana conhecida, o risco de eventos cardiovasculares quadruplicou nos dias de jogos da seleção. Mesmo sem diagnóstico prévio, houve um aumento considerável.
## O Papel da Emoção e Outros Fatores
Os pesquisadores enfatizam que o futebol não é a causa direta dos infartos, mas sim um gatilho para um organismo já suscetível. Um achado notável da pesquisa foi que o aumento das emergências cardiovasculares diminuía drasticamente em jogos sem a participação da Alemanha, sugerindo que o componente emocional e a identificação com a equipe desempenham um papel crucial. Os picos de emergências foram registrados em confrontos eliminatórios, como a vitória da Alemanha sobre a Argentina nos pênaltis e a semifinal contra a Itália.
Outro dado relevante é que o aumento de infartos e arritmias começou antes mesmo do apito inicial, atingindo seu ápice nas duas primeiras horas de partida. A incidência permaneceu elevada por algumas horas antes de normalizar, coincidindo com o tempo de ação do estresse hormonal no sistema cardiovascular.
Além do estresse, outros fatores podem contribuir para o aumento da carga sobre o coração em dias de jogos decisivos. O consumo excessivo de álcool, refeições gordurosas, tabagismo, privação de sono e a omissão de medicamentos contínuos são elementos que, somados, podem agravar o quadro, embora não expliquem isoladamente o aumento expressivo observado em dias de jogos importantes.