Parque 'Monte de Oração' em SP gera polêmica e acusações de privilégio religioso

Controvérsia envolve a construção do parque Monte de Oração em SP. ONGs e moradores acusam a prefeitura de privilégio a evangélicos, enquanto a gestão municipal garante uso aberto e respeito à diversidade.

Parque 'Monte de Oração' em SP gera polêmica e acusações de privilégio religioso

A construção do parque Monte de Oração, na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, está no centro de um debate que envolve acusações de privilégio religioso por parte da prefeitura. A área de 36 mil m², localizada na Mata do Iguatemi e tradicionalmente utilizada por evangélicos para cultos, será reformada com investimentos de R$ 10,7 milhões em infraestrutura e segurança, financiados com recursos de compensação ambiental e do próprio município.

## Diálogo questionado e ausência de outras religiões

A ordem de início das obras foi assinada em março pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), em um evento que contou com a presença de pastores da região. Essa reunião exclusiva com líderes evangélicos levantou questionamentos sobre a falta de diálogo com representantes de outras crenças. Pai Jair de Odé, presidente da ONG Ilê Axé Omo Odé e pai de santo na região, expressou sua insatisfação por ter tomado conhecimento do projeto pelas redes sociais e criticou a subprefeitura pela ausência de conversas com outros grupos religiosos.

"Do jeito que está sendo divulgado, é um espaço evangélico. Se vai ser um parque com estrutura, com banheiro, com grade, com segurança, teria que ser para todos", afirmou Pai Jair, defendendo que um espaço público deve ser acessível a toda a comunidade.

## Prefeitura garante uso aberto e respeito à diversidade

A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, por meio de sua chefe de gabinete, Tamires Oliveira, assegurou que o parque será de uso aberto a toda a população e que o projeto respeita a diversidade religiosa. Segundo ela, o diálogo com os evangélicos ocorreu devido ao uso contínuo do espaço por mais de 50 anos pela comunidade religiosa. "Nós não estamos fazendo nada exclusivo para ninguém", declarou Oliveira, ao mesmo tempo em que ressaltou que outras pessoas também são bem-vindas a procurar a secretaria.

## Ministério Público é acionado

Apesar das garantias da prefeitura, a Associação Movimento Brasil Laico protocolou uma representação no Ministério Público em maio, solicitando uma investigação sobre a construção do parque. A entidade acusa o município de violar os princípios da isonomia e da laicidade do Estado ao supostamente favorecer um segmento religioso específico com investimento de recursos públicos. Leandro Patrício, diretor-presidente da associação, argumenta que, em um Estado laico, o poder público não pode beneficiar um grupo em detrimento de outros.

## Preocupações com intolerância e ancestralidade

Moradores e gestores culturais locais expressam preocupação com a representatividade de outras religiões na Cidade Tiradentes, que possui uma população majoritariamente negra. Pai Jair de Odé ressalta a importância de se trabalhar a ancestralidade e de se pensar em espaços para outras religiões, além de criticar a dificuldade que praticantes de religiões de matriz africana enfrentam para obter reconhecimento e visibilidade na região. Bia Sankofa, gestora cultural e praticante de candomblé, manifestou receio de ser vítima de intolerância religiosa no novo espaço, o que a levaria a não frequentá-lo.

Por outro lado, o pastor Alexandre Deanini, da Igreja Batista Betel, defende a inclusão de todas as religiões no parque, afirmando que um umbandista, por exemplo, teria o mesmo direito de estar no local.