Copa do Mundo e Eleições: O Impacto do Hexa no Voto Presidencial

Especialistas debatem se um título do Brasil na Copa do Mundo de 2026 pode influenciar eleições presidenciais, apontando para efeitos emocionais e temporários, mas ressaltando o peso do contexto econômico.

Copa do Mundo e Eleições: O Impacto do Hexa no Voto Presidencial

A Seleção Brasileira se prepara para um confronto decisivo nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos. O jogo, marcado para este domingo (5), ocorre a apenas três meses do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, em outubro. Em um país onde o futebol transcende o esporte e se entrelaça com a esfera social e política, surge a pergunta: um possível hexacampeonato mundial pode, de fato, influenciar a decisão do eleitor na urna?

Especialistas em comportamento eleitoral e ciência política foram consultados para desvendar essa relação, examinando como uma vitória ou uma derrota podem impactar a corrida presidencial. A ideia de que o futebol pode ser explorado politicamente não é nova, tendo sido observada em períodos históricos como a ditadura militar. Contudo, no atual cenário democrático, a influência é vista de forma mais sutil.

## Transferência Emocional e Humor Social

Renata Coelho, especialista em comportamento eleitoral, explica que um título da seleção pode, indiretamente, reforçar a imagem do presidente em exercício. Esse fenômeno não se dá de maneira consciente, mas através de uma "transferência emocional". Momentos de euforia nacional e contentamento coletivo podem levar a uma satisfação geral, que, por sua vez, pode se estender à percepção do governo.

"Ninguém acorda depois de um título e pensa conscientemente ‘o Brasil ganhou, logo vou votar no presidente’. O que acontece é uma transferência emocional que gera um sentimento de satisfação com a situação atual das coisas, inclusive com o governo", detalha Coelho, que possui mestrado pela ESPM.

Gustavo Javier Castro, filósofo e mestre em ciência política, corrobora a ideia de que grandes vitórias da Seleção geram euforia e reforçam a identidade nacional. Esse ambiente pode trazer ganhos indiretos para governos, especialmente em termos de percepção pública e humor social. No entanto, ele ressalta a necessidade de cautela.

"Um eventual título pode gerar um benefício simbólico momentâneo ao presidente, especialmente em termos de visibilidade e associação emocional positiva, mas dificilmente seria suficiente, por si só, para alterar estruturalmente cenários eleitorais", pondera Castro.

## O Fator Tempo e Contexto Econômico

Coelho alerta que o efeito de um título mundial, por mais intenso que seja, possui um prazo de validade limitado. "Ele se dissolve rapidamente quando a realidade do cotidiano volta à cena", afirma.

Um exemplo citado é a Copa de 1994, quando o tetracampeonato coincidiu com o lançamento do Plano Real e uma expectativa de recuperação econômica. Naquele momento, o eleitor celebrava tanto o fim da hiperinflação quanto a vitória da seleção. Fernando Henrique Cardoso, então candidato, teria "surfado nesse duplo alívio".

Contudo, a especialista enfatiza que é impossível desassociar completamente os efeitos do futebol do contexto econômico e social. O título, segundo ela, potencializa o que já existe. "Quando esse contexto favorável não está presente, o eleitor vai à festa, celebra com o presidente e, ainda assim, vota pela mudança", conclui.