Carta de Flávio Bolsonaro aos EUA é vista como inócua e arriscada eleitoralmente
Especialistas consideram a carta de Flávio Bolsonaro aos EUA sobre tarifas comerciais inócua tecnicamente e politicamente arriscada. A iniciativa pode afastar eleitores independentes e não deve impactar a disputa presidencial.

Um documento enviado pelo senador Flávio Bolsonaro ao governo dos Estados Unidos, com o objetivo de contestar as tarifas propostas para produtos brasileiros, tem sido amplamente considerado ineficaz tanto no âmbito comercial quanto no político. Especialistas ouvidos pelo jornal Valor apontam que a iniciativa, além de não apresentar argumentos técnicos sólidos, pode prejudicar a imagem do pré-candidato do PL à Presidência junto ao eleitorado independente.
A carta foi encaminhada na última quinta-feira (2) ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em resposta à proposta de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, fruto de uma investigação iniciada com base na Seção 301. Entre as sugestões apresentadas por Flávio Bolsonaro, destaca-se o pedido de adiamento da decisão sobre as sobretaxas para após as eleições presidenciais no Brasil.
## Críticas e Contestações
A iniciativa gerou críticas imediatas, incluindo uma fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que classificou a ação como obra de "traidores da pátria". O próprio texto de Flávio Bolsonaro argumenta que as tarifas impostas pelos EUA beneficiariam politicamente o governo Lula, em um momento em que o petista tem reforçado o discurso de defesa da soberania nacional. Curiosamente, a família Bolsonaro havia incentivado, no ano passado, uma postura mais firme contra a ofensiva americana, em meio ao debate sobre a trama golpista.
## Argumentos Técnicos Questionados
No documento, o senador propôs medidas para abordar as críticas americanas, como a negociação para zerar tarifas sobre o etanol e a defesa do Pix contra alegações de concorrência desleal com empresas dos EUA. Sugeriu também a redução de impostos para empresas de cartão de crédito e o compromisso de que o sistema de pagamentos brasileiro não se conecte a sistemas fora do Ocidente.
No entanto, Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, avalia que a carta carece de base técnica. "A carta descreve um cenário político no Brasil e fala até sobre posição do governo Lula em relação à China, mas não é essa a discussão técnica que está em jogo", afirma. Barral explica que o foco da investigação da Seção 301 são questões técnicas e jurídicas, e que as propostas de Flávio Bolsonaro, como a restrição do Pix ou a tarifação do etanol, são vagas e dependem de negociações complexas e processos internos no Brasil, que envolvem acordos na OMC e cotas de açúcar.
## Estratégia Eleitoral em Xeque
Do ponto de vista político, a movimentação de Flávio Bolsonaro é vista como uma estratégia para minimizar danos em sua pré-campanha presidencial. O cientista político Guilherme Casarões, da Florida International University, aponta que o objetivo seria demonstrar atuação em defesa do país e contrapor o governo Lula. Contudo, ele ressalta que os argumentos do texto parecem mais alinhados aos rumos da campanha do que à defesa de interesses econômicos nacionais. Ao vincular o calendário das tarifas a um cálculo eleitoral, a iniciativa poderia reforçar a percepção de interferência externa.
Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria, concorda que o episódio dificilmente alterará o cenário eleitoral, que permanece atrelado à avaliação do governo Lula. Ainda assim, ele vê o documento e a participação de Flávio em audiências como clara jogada eleitoral, mas com o risco de afastar eleitores independentes, que não se identificam fortemente nem com o lulismo nem com o bolsonarismo.