Anarquismo no Brasil: Ideias de Bakunin persistem 150 anos após sua morte

Cento e cinquenta anos após a morte de Mikhail Bakunin, o anarquismo persiste no Brasil com princípios de autogestão e crítica ao Estado. Apesar de minoritário, o movimento busca espaço em meio a crises e se alia a outras lutas sociais.

Anarquismo no Brasil: Ideias de Bakunin persistem 150 anos após sua morte

Cento e cinquenta anos após o falecimento de Mikhail Bakunin, um dos pilares do pensamento anarquista, suas ideias continuam a ressoar no Brasil, ainda que de forma discreta. O filósofo russo, que morreu em 3 de julho de 1876 na Suíça, foi uma figura central na disseminação do anarquismo pela Europa e, posteriormente, pelo mundo, incluindo o território brasileiro.

## Princípios Fundamentais do Anarquismo

Segundo Felipe Corrêa, doutor pela Unicamp e autor de "Liberdade ou Morte: Teoria e Prática de Mikhail Bakunin", o anarquismo se baseia em três pilares: a incessante crítica à dominação em todas as suas formas, a defesa radical da autogestão social e econômica, e a busca por uma estratégia que vise à abolição das classes sociais e à descentralização do poder de decisão, concentrando-o nas mãos dos trabalhadores.

Arthur Castro, professor de história e militante anarquista, aponta a distinção fundamental entre o anarquismo e outras vertentes do socialismo, como o marxismo. Enquanto este último prevê uma fase de transição com a "ditadura do proletariado" antes da extinção do Estado, os anarquistas defendem a abolição imediata do Estado. Para eles, qualquer forma de poder centralizado, mesmo exercido por trabalhadores ou por um partido revolucionário, perpetua a estrutura de classes e a dominação, algo que deve ser combatido ativamente.

## Organização e Atuação no Brasil

No Brasil, o anarquismo se manifesta através de uma militância dispersa em federações, coletivos e sindicatos, sem dados precisos sobre seu número total, mas reconhecidamente minoritária. Organizações como a Organização Socialista Libertária (OSL), presente em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, atuam na luta de classes contra grandes corporações e diferentes espectros políticos. A Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), ativa desde 2012, articula diversos grupos anarquistas no país.

Além das organizações ativas, espaços culturais como o Centro de Cultura Social (CCS) em São Paulo promovem atividades como palestras, peças e filmes, enquanto a Biblioteca Terra Livre atua como editora e divulgadora de textos anarquistas. Essas iniciativas buscam o aprimoramento intelectual e o debate público sobre as ideias libertárias.

## Desafios e Potencial de Crescimento

Embora o anarquismo tenha tido momentos de maior expressividade no Brasil, como a participação em movimentos sociais do início do século XX e a discussão sobre os black blocs em 2013, sua influência política diminuiu consideravelmente. No entanto, pesquisadores como Corrêa e Castro vislumbram um potencial de crescimento. A frustração generalizada com os problemas econômicos e políticos vivenciados pelo país pode criar um terreno fértil para a expansão das ideias anarquistas, que oferecem uma crítica contundente ao sistema vigente e propõem alternativas baseadas na autogestão e na liberdade individual e coletiva.

O movimento também se alinha a outras lutas sociais, combatendo ativamente o racismo, a LGBTfobia e o machismo, reforçando seu caráter libertário e inclusivo. A ausência de um Estado centralizador, para os anarquistas, não significa desordem, mas sim a possibilidade de uma sociedade organizada de forma voluntária e cooperativa, através de associações e comunas autogeridas.