Governo Pede Desculpas por Aluno Desaparecido na Ditadura
Governo brasileiro pede desculpas por desaparecimento de Paulo de Tarso Celestino da Silva, ex-aluno da UnB, vítima da ditadura militar. Ato reconhece responsabilidade estatal e busca reparação.

Quase cinco décadas após o desaparecimento de Paulo de Tarso Celestino da Silva, ex-aluno de Direito da Universidade de Brasília (UnB) e vítima da repressão da ditadura militar, o governo brasileiro emitiu um pedido público de desculpas. O ato simbólico, realizado em cerimônia na UnB, buscou promover uma reparação à família de Paulo de Tarso e a toda a sociedade brasileira, reconhecendo as graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1964 e 1985.
Paulo de Tarso, natural de Morrinhos (GO), foi militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) e concluiu sua graduação em Direito pela UnB em 1969. Ele também realizou pós-graduação na Universidade de Sorbonne, na França. Sua trajetória foi interrompida em 12 de julho de 1971, quando foi capturado no Rio de Janeiro por agentes do DOI-CODI do I Exército, juntamente com Heleny Ferreira Telles Guariba. Ele foi considerado morto pela Lei 9.140, de 1995, que reconhece a morte de pessoas detidas por agentes públicos durante o regime.
## O Calvário na "Casa da Morte"
Relatos de ex-presas políticas indicam que Paulo de Tarso foi levado para um centro clandestino de detenção mantido pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE) em Petrópolis, conhecido como "Casa da Morte". Lá, ele teria sido submetido a intensas sessões de tortura por cerca de 48 horas. Depoimentos descrevem o uso de métodos cruéis, como o "pau-de-arara", e a privação de água após ser forçado a ingerir grande quantidade de sal. Investigações posteriores, conduzidas pela Comissão da Verdade e pela Comissão de Mortos e Desaparecidos, a partir de arquivos e relatos, sugerem que corpos de presos políticos executados no local eram esquartejados para dificultar a identificação.
## Reconhecimento e Reparação
A ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Janine Melo, realizou o pedido de desculpas oficial, enfatizando a responsabilidade do Estado brasileiro pelas violações cometidas. "O seu desaparecimento representa uma das faces mais cruéis da violência praticada pelo Estado durante a ditadura militar. A ausência de respostas sobre o seu destino ainda impede a sua família de exercer plenamente o seu direito ao luto e desafia toda a sociedade brasileira na busca pela verdade e pela memória", declarou.
A ministra, que também é egressa da UnB, ressaltou que o ato faz parte de uma série de ações para reparação simbólica das vítimas e fortalecimento das políticas de memória e verdade. Ela pontuou que os traumas da ditadura atravessaram gerações e continuam a desafiar o Brasil em seu processo de reconciliação histórica.
## Memória e Luta pela Democracia
A reitora da UnB, Rozana Naves, lembrou das perseguições às universidades durante o regime militar e associou a memória de Paulo de Tarso à defesa da liberdade de pensamento, da autonomia universitária e do combate ao autoritarismo. "Estar aqui hoje é reconhecer uma ausência, mas também reconhecer uma presença. A ausência de uma vida interrompida pela violência de Estado. A presença de uma memória que segue nos convocando para defender com coragem aquilo que sustenta uma universidade pública: liberdade, pensamento crítico, justiça, democracia e compromisso com o país", afirmou.
A cerimônia contou com a participação de familiares, ex-colegas de Paulo de Tarso, membros da comunidade acadêmica e representantes da Comissão de Mortos e Desaparecidos e da Comissão de Anistia, reforçando a importância da memória e da busca por justiça.