Gringos Sacam R$ 7,7 Bilhões da Bolsa em Junho

Investidores estrangeiros retiraram R$ 7,78 bi da Bolsa em junho, segunda maior saída do ano. Especialistas apontam fatores globais, juros e cenário eleitoral para a cautela.

Gringos Sacam R$ 7,7 Bilhões da Bolsa em Junho

Investidores estrangeiros retiraram R$ 7,78 bilhões da Bolsa brasileira em junho, segundo dados da B3. Esse movimento representa a segunda maior saída mensal registrada em 2024 e acendeu um sinal de cautela no mercado local, apesar de o saldo acumulado no primeiro semestre do ano ainda se manter positivo em R$ 33,8 bilhões.

Após um início de ano marcado por um forte apetite por ativos emergentes e expressiva entrada de recursos, a Bolsa brasileira viu uma reversão parcial desse fluxo a partir de meados de abril, movimento que se estendeu até o final de junho. Especialistas apontam um cenário global "mais assimétrico" como um dos principais fatores para essa mudança.

## Fatores Globais e Juros em Destaque

Eduardo Amorim, especialista em investimentos da Manchester, explica que enquanto mercados desenvolvidos concentram atenção em inteligência artificial, juros de longo prazo e tensões geopolíticas, outras regiões com dinâmicas menos correlacionadas ganham espaço em carteiras globais. Ele ressalta que a atratividade inicial do Brasil para investidores estrangeiros esteve mais ligada ao diferencial de juros, ao "carrego" elevado e à renda fixa local, do que a uma tese estrutural para ações.

"O investidor estrangeiro olha para o Brasil também como uma oportunidade de juros reais altos, moeda e prêmio de risco, não apenas como exposição acionária", afirma Amorim. Essa visão ajuda a explicar o saldo positivo anual, mas também a sensibilidade do movimento a mudanças no cenário externo.

Danilo Coelho, economista e especialista em investimentos da CEA, adiciona que o início da guerra entre Irã e Estados Unidos impactou negativamente o apetite por ativos de risco, levando à retirada de parte dos recursos entrados na Bolsa nos meses anteriores. Ele observa que o fluxo perdeu força gradualmente após o aumento dessas tensões. A postura mais cautelosa do investidor estrangeiro se reflete na saída de junho, agravada por receios relacionados ao cenário eleitoral brasileiro.

## Rotação para EUA e Disputa na Ásia

André Neves, sócio da área de Mercado de Capitais e Banking do BZCP Advogados, aponta componentes técnicos e estruturais para a saída de recursos. Do lado técnico, o retorno do interesse em inteligência artificial nos EUA concentrou fluxos no mercado americano, um movimento que tende a ser reversível. Contudo, fatores mais estruturais, como juros americanos elevados por mais tempo e o ciclo eleitoral brasileiro de 2026 com potencial para estímulos econômicos de cunho eleitoral, também pesam contra os emergentes.

A recuperação de Wall Street, impulsionada pelo ciclo de IA e tecnologia, atrai capital para os EUA e alguns mercados asiáticos. Com o rali da IA, parte significativa do fluxo global para emergentes foi direcionada à Ásia, em detrimento de mercados como o brasileiro, mais associados a commodities. Nesse contexto, Amorim sugere que o Brasil pode funcionar como alternativa de diversificação, com ativos locais menos dependentes da tese de IA.