Torcida Norueguesa: A "Remada Viking" que Cria Identidade Nacional
A "remada viking", gesto popular da torcida norueguesa, é mais que apoio esportivo; fortalece a identidade nacional ao resgatar o ideal heroico escandinavo e sua herança náutica.

A popular "remada viking", gesto icônico que embala a torcida norueguesa em eventos esportivos, transcende a simples celebração em campo. Mais do que um ritual de apoio à seleção nacional, a coreografia que evoca os guerreiros escandinavos dos séculos VIII a XI se tornou um poderoso elemento na construção da identidade nacional norueguesa, especialmente em um contexto histórico de busca por autonomia.
## A Busca por Autonomia e o "Heroísmo Viking"
Segundo o professor Johnni Langer, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a exaltação da figura "viking" ganhou força na Noruega a partir do século XIX. Naquela época, o país ainda lutava para consolidar sua independência, tendo passado por períodos de domínio dinamarquês e sueco. O "heroísmo viking" serviu como um catalisador para forjar uma identidade moderna e forte, diferenciando a Noruega de seus vizinhos escandinavos.
Essa narrativa foi amplificada por artistas e escritores românticos do século XIX, que criaram a imagem idealizada do guerreiro viking. "Praticamente todas as nações, naquela época, queriam ser vistas pelas outras como militarmente poderosas, por uma questão de política internacional", explica Langer, coordenador do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (Neve) da UFPB. A imagem do guerreiro com elmo de chifres, embora estereotipada, reflete essa necessidade de projeção de poder.
## Mar e Aventura: A Herança Náutica Viking
A conexão com o mar é intrínseca à identidade norueguesa, e os vikings desempenharam um papel crucial nesse aspecto. A sofisticação de seus navios de guerra, leves e ágeis, permitia expedições ousadas por vastas distâncias, incluindo rotas para a América do Norte. Essa herança náutica se reflete no século XX com exploradores como Thor Heyerdahl, ícone nacional que navegou do Peru ao Pacífico em uma jangada.
Langer ressalta que, embora a "remada" popularizada em Copas do Mundo remeta a essa cultura náutica, o gesto em si não possui caráter ritualístico. "A remada é puramente prática. Os vikings remavam para chegar a algum lugar", afirma o professor, desmistificando a ideia de um significado mais profundo por trás do movimento.
## Desmistificando o "Viking"
É importante notar que o termo "viking" descreve uma atividade – a prática de pirataria, comércio ou colonização marítima – e não uma etnia. Essa atividade era exercida por uma fração das sociedades escandinavas da época, incluindo dinamarqueses, suecos e noruegueses, que compartilhavam a língua nórdica antiga e a mitologia.
Expedições a locais como Islândia e América do Norte, realizadas por noruegueses, não são tecnicamente "viking" no sentido de pilhagem ou guerra de conquista. "Eles estão procurando terras para criar fazendas. Um termo melhor seria 'colonos armados'", pontua Langer. A imagem moderna do viking, com elmos adornados com chifres, é uma criação artística do século XIX, sem base histórica, que buscava glorificar o passado e fortalecer o sentimento nacional.