Exposição "Zona de Sacrifício" expõe drama da mineração no Vale do Jequitinhonha
Exposição no Rio de Janeiro exibe fotos e instalações sobre os impactos da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha, questionando a transição energética e a sustentabilidade.

O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, localizado no bairro do Catete, na Zona Sul do Rio de Janeiro, abre nesta sexta-feira (3) as portas para a exposição "Zona de Sacrifício: do ouro ao pó". A mostra, que fica em cartaz até 2 de novembro, apresenta um olhar crítico sobre a corrida por minerais estratégicos no Brasil, com foco especial no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, região que concentra 85% das reservas de lítio do país.
Com curadoria de Carol Lopes, a exposição é um projeto autoral da fotógrafa e documentarista mineira Isis Medeiros, contemplado pelo Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. A mostra é composta por 40 fotografias que registram os impactos humanos, ambientais e afetivos de um novo ciclo extrativista. Além das imagens, o público terá contato com obras de ceramistas locais e instalações artísticas que convidam à reflexão sobre a transição energética e a mineração sustentável.
## O Lítio e a Promessa da Economia Verde
O lítio, mineral essencial para a fabricação de baterias de carros elétricos, celulares e sistemas de armazenamento de energia, tem sido alvo de intensa exploração global. O Brasil figura atualmente na 6ª posição no ranking mundial de reservas do mineral, considerado crucial para a chamada transição energética. A exposição questiona como a promessa de uma economia verde se alinha, na prática, com a degradação ambiental, a pressão sobre os recursos hídricos e as ameaças aos modos de vida de comunidades rurais e tradicionais.
Isis Medeiros explica que o título da exposição, "do ouro ao pó", remete a uma reflexão histórica, desde a exploração do ouro e diamante no período colonial até os dias atuais. "Parece que tudo é novo, mas a gente vê a mesma prática de exploração, a mesma prática de uso desenfreado dos recursos que não trazem retorno social e econômico para as comunidades tradicionais que ali vivem", afirma a artista.
## Reflexões sobre a Paisagem e a Vida
A curadora Carol Lopes destaca a forma como Isis Medeiros constrói sua prática fotográfica, baseada na criação de redes e no tempo compartilhado. "Em suas fotografias, a paisagem se revela em camadas. À noite, o ruído das máquinas e a iluminação das mineradoras anunciam uma presença perturbadora. Durante o dia, emergem montanhas de rejeitos, crateras no solo e o pó que adoece e a proximidade entre a atividade e a vida cotidiana", descreve Lopes.
A exposição também abre espaço para o debate público. Nesta sexta-feira, às 16h, ocorrerá a Roda de Confluências, reunindo a antropóloga Ana Carolina Nascimento, Sandra Benites (Funarte), Chico (liderança comunitária de Piauí Poço Dantas, Itinga-MG), Tatiana da Costa Sena (Instituto Federal do Norte de Minas Gerais) e Helena Taliberti, que perdeu filhos e neta no rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG). Helena Taliberti ressalta a importância da arte em conectar a realidade e conscientizar a sociedade: "As pessoas precisam saber o que aconteceu e o que está acontecendo lá. Rio de Janeiro e São Paulo vivem longe dessas realidades, que precisam ser mostradas". A mostra busca, portanto, ampliar a discussão sobre os modelos de desenvolvimento e seus impactos socioambientais.