Dicionários Digitais Revitalizam Línguas Indígenas Ameaçadas
Dicionários multimídia criados por linguistas do Museu Paraense Emílio Goeldi e parceiros buscam revitalizar línguas indígenas ameaçadas no Brasil, usando tecnologia para preservar saberes ancestrais.

A Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), proclamada pela ONU, reforça a urgência em preservar e revitalizar os idiomas falados por comunidades originárias em todo o mundo. Muitas dessas línguas estão em risco iminente de desaparecimento, levando consigo saberes únicos sobre fauna, flora, medicina e cosmovisões.
No Brasil, a Amazônia concentra a maior diversidade linguística, com aproximadamente 150 a 170 línguas faladas. O Censo de 2022 identificou 295 línguas indígenas autoidentificadas, um número que abrange desde idiomas falados ativamente até aqueles em processo de retomada. A perda desses idiomas representa um risco maior para a extinção de conhecimentos específicos, como os medicinais, do que a própria perda de biodiversidade.
Diante desse cenário, esforços de comunidades indígenas e cientistas têm se intensificado para documentar e revitalizar essas línguas. Linguistas do Museu Paraense Emílio Goeldi, com mais de 50 anos de atuação na Amazônia Legal, têm desenvolvido metodologias inovadoras. Uma dessas iniciativas são os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas, que chegaram à fase final do 13º Prêmio da Fundação Banco do Brasil de Tecnologias Sociais.
Desenvolvidos em colaboração com a University of New Mexico, os dicionários são ferramentas digitais bilíngues com o português, contemplando línguas como kanoé, oro win, puruborá, sakurabiat, salamãi e wanyam, além de um dicionário de lugares sagrados dos medzeniakonai. Outros quatro idiomas estão em fase final de produção. A tecnologia, como smartphones e tablets, já presente em muitas comunidades, facilita a implementação dessas ferramentas, que utilizam recursos de áudio, vídeo e imagem para ilustrar o uso das palavras e frases.
Esses dicionários digitais vão além de um simples registro linguístico. Eles funcionam como instrumentos de manutenção e fortalecimento, permitindo que aspectos orais da língua sejam registrados e transmitidos com maior fidelidade. O Portal Japiim, do Museu Nacional dos Povos Indígenas, também oferece um modelo similar de dicionário multimídia, ampliando as possibilidades de salvaguarda do patrimônio linguístico indígena.