Pacto Sul-Americano Contra o Anarquismo Uniu Brasil, Argentina e Uruguai

Brasil, Argentina e Uruguai assinaram em 1906 o Pacto Policial Contra o Anarquismo para combater ideologias de esquerda e instabilidade política, marcando o início da cooperação transnacional na América do Sul.

Pacto Sul-Americano Contra o Anarquismo Uniu Brasil, Argentina e Uruguai

No alvorecer do século XX, as recém-formadas repúblicas sul-americanas enfrentavam um cenário de instabilidade política e o surgimento de ideologias consideradas disruptivas. A chegada de imigrantes europeus, muitos trazendo consigo ideias anarquistas e de esquerda, intensificou preocupações entre as elites governantes. Atentados contra presidentes e figuras políticas na região, como o assassinato do presidente uruguaio Juan Idiarte Borda em 1897 e um atentado contra o presidente brasileiro Prudente de Morais no mesmo ano, evidenciaram a crescente tensão.

O historiador Rômulo Dias, professor de política internacional, aponta que a imigração em massa, portadora de diversas ideologias, foi um catalisador para essa instabilidade. "Na Argentina a coisa fica mais pesada. As ideias anarquistas se traduzem em tentativas concretas de assassinatos", observa Dias, comparando a situação a um "barril de pólvora" na América do Sul.

Diante desse quadro, os governos buscaram uma solução para manter o status quo. A resposta veio através de um acordo de cooperação regional. Em 21 de janeiro de 1906, Brasil, Argentina e Uruguai selaram o Pacto Policial Contra o Anarquismo. Este tratado formalizou e intensificou discussões que já vinham ocorrendo desde o ano anterior.

## Conferência Pioneira em Buenos Aires

Em outubro de 1905, Buenos Aires sediou a Conferência Interpolicial, um marco na cooperação regional. Autoridades policiais do continente reuniram-se para discutir convênios de ajuda mútua e o intercâmbio de tecnologias, como datiloscopia e métodos de registro de identidade. O objetivo principal era "cientifizar" as polícias e conectá-las para combater crimes políticos e a circulação de "novas ideias".

"A convocação dessa conferência vem neste contexto, pós-tentativa de assassinato do presidente argentino, na tentativa de unir as forças policiais e pensar como combater esses criminosos transnacionais, como blindar esses países do Cone Sul do impacto político e social das novas ideias que começam a circular com mais força", contextualiza Dias.

## Cooperação Transnacional e Precursora do Mercosul

O cientista político Enrique Natalino, do Cebrap, destaca que o pacto é o primeiro marco de cooperação transnacional no Cone Sul. Ele vislumbra no acordo um embrião do que viria a ser o Mercosul, consolidando a ideia de integração regional.

O historiador Victor Missiato, pesquisador do Instituto Presbiteriano Mackenzie, reforça que o acordo formalizou conversas preexistentes entre as polícias, especialmente entre Brasil e Argentina, e que o combate se estendia não apenas à ameaça anarquista, mas também às primeiras manifestações de trabalhadores. O tratado, portanto, representou um esforço conjunto para conter tanto insurgências populares quanto ideologias consideradas radicais, moldando o futuro das relações e da segurança na região.